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....Talvez tenha sido a expressão indignada no meu rosto que fez com que aquela mulher indígena viesse falar comigo.
....Lá estava eu, no Museu da República, no Rio de Janeiro. Uma performance com várias tribos estava acontecendo em comemoração ao DIA DO ÍNDIO.
 


....Do meu ponto de vista, o evento parecia um desfile de todos os estereótipos e imagens pré-concebidas de índios: penas, pinturas, índios dançando em círculo e tocando instrumentos típicos.
....Num dia em que se esperava informar o público sobre a situação dos povos indígenas, o que mais surpreendia era o que não estava sendo dito. Quadros informativos por todo o museu falavam sobre seus costumes, utensílios de cozinha, anzóis...mas não mencionavam as disputas dos povos indígenas para reaver suas terras, para ter as fronteiras de seus territórios respeitadas. Não mencionavam que na chegada dos portugueses ao Brasil havia mais de duas mil línguas indígenas e que hoje há apenas pouco mais de duas centenas. Não mencionavam como tantos povos indígenas foram exterminados; como tantas culturas foram dizimadas.
....Uma coisa que me chamou especialmente a atenção foi o fato de não haver absolutamente nenhuma menção a Galdino. Quatro garotos ricos de Brasília: Max Rogério Alves, Antônio Novely Cardoso Vilanova, Tomás Oliveira de Almeida e Eron Chaves Oliveira, jogaram gasolina no Pataxó enquanto ele dormia na calçada e, então, atearam fogo. Ele morreu com 90% de seu corpo queimado. Eu nunca vi o rosto de Galdino, mas quando eu fui ao julgamento dos quatro acusados de seu assassinato, sua família me mostrou as fotos do cadáver terrivelmente carbonizado feitas pelos legistas.
....Aquilo foi algo de que eu nunca mais me esqueceria. Ainda neste evento, supostamente em celebração aos povos indígenas, não havia absolutamente nada em memória da vida perdida deste homem. Ao invés disso, o que estava sendo imposto à percepção do público era aquela exótica imagem pitoresca do índio: invisível, inexistente, exceto em obscenas caricaturas no Carnaval e nas novelas de TV. Miçangas, penas, artesanatos: estes são os símbolos atribuídos aos povos indígenas.
....Uma patricinha passou por mim. Ela estava carregada com uma variedade de miçangas e colares indígenas que havia comprado. Eu perguntei a ela: "o que você acha do fato de não haver nada aqui em memória de Galdino?"
....Ela parou, deu-me total atenção e, com um belo sorriso, perguntou inocentemente: "Galdino? Quem é esse?" Contrariado, dei as costas e fui embora.
....Comecei a pensar sobre a indiferença que percebia em relação às questões indígenas. Mesmo com toda a repercussão que o caso Galdino teve na mídia, ninguém para quem eu tenha perguntado soube falar o nome de uma música que tratasse especificamente do assunto.
....Alguém mencionou um videoclipe de hip hop que fazia uma referência ao índio, mas que estava repleto de imagens racistas e estereotipadas dos povos indígenas.
....O vídeo continha diversas cenas com índios pintados, sentados ao redor de uma fogueira. Para mim, isto é um dos maiores clichês, que perpetuam a idéia de índios vivendo como animais, limitados a uma vida na floresta em torno da fogueira. Mas os índios são mais do que isso. Lembrei de um índio amigo meu que é programador de software e hacker, e de um outro que é advogado, fiquei possesso. Portanto, este estereótipo comprometeu totalmente qualquer boa intenção que o artista possa ter tido.
....Continuei me perguntando onde estariam as vozes dos artistas e músicos falando sobre esta tragédia que aconteceu com Galdino. Onde estariam as vozes falando sobre as sérias questões relacionadas às ameaçadoras condições de vida dos povos indígenas.
....Suas questões praticamente nunca são discutidas. Como se os povos indígenas não existissem e as questões relacionadas a eles não fizessem diferença.
....Quando viajei pelo Brasil e conversei com artistas brasileiros sobre isto, as pessoas eram geralmente solidárias, mas havia sempre uma atitude de indiferença. Geralmente, eu ia embora com a sensação de estar falando para as pessoas sobre algo que elas não sentiam ser realmente importante. Não que não tenha importância, mas havia coisas mais relevantes para discutir e trabalhar do que falar sobre os povos indígenas, afinal, isso é algo para os gringos como Sting, que gostam de ir para a Amazônia e tirar fotos ao lado de índios pintados. Foi neste momento, quando estava com meu coração ao mesmo triste e com raiva pelo enfraquecimento da lembrança de Galdino, que esta mulher indígena aproximou-se de mim. Ela estava com tanta raiva do evento quanto eu. As pessoas ficam muito felizes de vir a um evento como este: elas vêem exóticos índios pintados tocando e dançando e pensam: "ah, estamos vendo os verdadeiros índios, os que vivem nas florestas", mas eles vivem em quase todas as grandes cidades. Há uma favela em São Paulo cheia de índios Guarani. Então, quer dizer que estes índios não são reais?
....Perguntei a ela qual pensava ser a razão da indiferença para com os povos indígenas e suas questões. Ela respondeu que, de algum modo, estamos programados para ver os índios brasileiros como inferiores ao "povo civilizado" e aos "índios importados", como os norte-americanos. Eles têm essa mística, esse glamour. Eles são mais bonitos que os índios brasileiros. As pessoas adoram tatuagens com imagens de índios norte-americanos. Os índios brasileiros são vistos como antigos edifícios que não podem ser demolidos, pois representam uma parte da história da nação. São vistos quase como animais em extinção. As pessoas não se importam como vivem ou se vivem. Faz-se mais barulho quando um antigo edifício está para ser derrubado do que quando um grupo de índios é assassinado por criadores de gado que querem suas terras para engordar seus rebanhos.
....Ela colocou a mão na bolsa e tirou uma fotografia, dizendo que mostraria algo que ia contra todos os estereótipos indígenas. E me mostrou uma foto de um grupo de mulheres indígenas, algumas usando máscaras e todas carregando rifles. Não estou tentando enaltecer as armas aqui, como a mídia faz a toda hora. Eu sei que nesta ocasião, as mulheres indígenas estavam armadas, pois estavam numa situação desesperadora e foram forçadas a se defender. Mas a razão pela qual estou lhes contando isso é porque vai completamente contra a imagem do indígena como passivo, preguiçoso, sempre disposto a aceitar a desgraça e a opressão. A opinião pública não pensa nos índios brasileiros como pessoas prontas e com vontade de lutar e contra-atacar. A maioria dos brasileiros ficaria realmente surpresa se eu mostrasse essa foto.
....Neste ponto, concordei plenamente com ela. Falei sobre os índios Krikati, do Maranhão, que lutaram contra o governo e contra as companhias hidrelétricas, destruindo cabos de transmissão de energia elétrica, deixando várias cidades inteiras no escuro para pressionar o governo, que ignorou anos de negociação pacífica para finalmente dar atenção à necessidade de demarcação territorial. Uma ação corajosa de uma pequena nação indígena, mas algo que não é discutido.
....A imagem de indígenas preguiçosos e passivos continua tão forte que os zapatistas mexicanos são aplaudidos por muitos no Brasil, que vestem camisetas do movimento. Mas eu sempre me pergunto: "será que eles não sabem que a maioria dos rostos por trás das máscaras zapatistas é, na realidade, de índios?" Há indígenas envolvidos em movimentos de resistência em várias partes do mundo. Quando mencionei isso, ela pegou uma revista e disse, olhando para a publicação: "aqui há boas informações sobre os povos indígenas no Brasil, mas observe com muito cuidado quem publica".
....A revista é feita por missionários e não podemos nos esquecer de que eles têm um objetivo. Eles estão em missão para converter. Não podemos negar a assistência que eles prestam às comunidades indígenas, realizando trabalhos que ninguém mais está fazendo. Mas temos que nos perguntar por que ninguém mais os está fazendo, onde estão as pessoas da esquerda e dos movimentos progressistas. Como permitiram que a Igreja ganhasse tanto acesso e poder junto às comunidades indígenas aqui no Brasil (ainda que estas mesmas pessoas freqüentemente reclamem sobre como os povos indígenas ficaram depois de terem sido convertidos ao cristianismo).
....Não podemos esquecer o papel que os missionários tiveram na história da carnificina dos povos indígenas. Eles colaboraram com os conquistadores espanhóis e portugueses em sua empreitada para a eliminação das culturas indígenas, sob o pretexto de salvá-los do paganismo. Eles impuseram sua língua e sua religião. Sabemos que muitas mulheres e crianças indígenas sofreram e continuam sofrendo abusos sexuais de missionários e padres. Tenho uma amiga indígena que está processando judicialmente a Igreja. Juntamente com outros membros de sua família, ela sofreu abuso sexual de padres católicos.
....Eu sabia exatamente sobre o que ela estava falando. Ela parou e riu: "sabe, talvez seja por isso que a Igreja fale tanto sobre a importância do perdão. Eles sabem toda a merda que fizeram". Rimos e ela continuou: "a questão é que os povos indígenas precisam ser donos de suas próprias publicações e controlá-las. E temos que falar mais das difíceis realidades que enfrentamos: pobreza extrema, suicídios, gringos roubando nosso conhecimento sobre ervas medicinais; escassez de terra, a terra que nos foi roubada. Nunca assinamos nenhum documento dando aos portugueses direitos sobre nossas terras ou recursos. Algum dia, quando tivermos mais advogados índios, levaremos este assunto aos tribunais. Aí, eles terão medo.
....Temos que falar sobre a realidade indígena, a resistência indígena, porque alguns de nós estamos contra-atacando.
....Este vinil é o primeiro lançamento de nosso novo selo IR. Um selo de propriedade e sob o controle de pessoas com ascendência indígena. No Brasil, este disco está disponível gratuitamente ao público e não pode ser vendido sob nenhuma circunstância. Não somos uma ONG.
....Não recebemos assistência do governo, de nenhum partido político, de nenhuma ONG e de nenhuma gravadora para produzir este disco. Não somos ricos, mas acreditamos que nada vem sem luta e sacrifício. E, para atingir nossos objetivos, utilizamos todo e qualquer meio necessário, como nos ensina a filosofia de Malcom X. É por isso que você está recebendo este disco gratuitamente. Fazemos parte e trabalhamos com um grupo de artistas como Asian Dub Foundation, Underground Resistance, Marcelo 'Troublemaker' Yuka, que acreditam que a classe artística tem um papel a cumprir na transformação positiva da sociedade. Isto não tem nada a ver com fazer fama, ganhar dinheiro e, definitivamente, nada a ver com o medo de viver com menos de um salário mínimo.
....Enquanto escrevíamos este texto, uma amiga me mandou um e-mail dizendo que, num período de dez dias, três índios foram assassinados no Brasil:

....• 6 de janeiro: no Rio Grande do Sul, três garotos chutaram e apedrejaram até a morte o índio Kaingang Leopoldo Crespo, enquanto dormia na calçada.

....• 9 de janeiro: Aldo da Silva Matos, um índio Macuxi, foi morto em Roraima. Seu corpo foi encontrado enterrado próximo à reserva Raposa Serra do Sol.

....• 14 de janeiro: Marcos Veron, cacique Guarani-Kaiowá, foi morto no Mato Grosso do Sul em decorrência de conflitos de terras entre índios e fazendeiros na região.

....Ela também informou que um dos garotos que matou o índio Pataxó Galdino em 1997 está em liberdade!

....Precisamos compreender que o fato ocorrido com Galdino não foi um incidente isolado e que, sob nossa perspectiva, reflete um sentimento de que a vida dos índios não seria tão valiosa quanto a dos demais cidadãos. Portanto, seus homicídios representariam menos, esquecendo de que eles também são seres humanos, com famílias que vão chorar suas mortes. Eles também, como todos os brasileiros, têm a importância e o potencial para contribuir e melhorar o país.


....É tempo de resistência e alerta.


....Como gostamos de dizer: FUCK BABYLON!


tradução de Lú